Como Falar do que não se vê

NESTA EDIÇÃO:

  • Como Falar Do Que Não Se Vê;

  • O que escuto enquanto escrevo essas linhas?

  • Cuidado! O Mesmo Encontra-se Parado Neste Andar!

como Falar do que não se vê

O livro na mesa é "Filmar o que Não Se Vê" do cineasta Patrício Guzman.

Conheci o trabalho dele durante a faculdade, assisti o filme Nostalgia da Luz para uma aula de documentário.

Foi uma revelação.

Não no sentido estético ou formal, foi mais na maneira como o roteiro é construído até porque tem outros documentários muito mais na fronteira do que este - veja Vizinhança Do Tigre, por exemplo, de Affonso Uchoa.

Factus Maximus é que desde então fiquei fascinado pela construção que ele faz de um assunto e como ele explora a ideia visualmente no filme. O Botão de Pérola é outro. Os dois que consegui encontrar por aqui para minha “coleção”.

A forma como ele aborda as diferentes formas de fazer documentários é inspiradora. No livro ele oferece uma perspectiva particular que me atrai bastante, explorando como capturar o invisível e dar voz ao que muitas vezes é ignorado ou esquecido. Sua obra se torna essencial para quem deseja entender e explorar o poder do cinema documental.

De um átomo dramático (termo que ele utiliza), que são letras soltas pelo ar que refletem um pedaço da vida - uma cena microscópica da existência humana - o cineasta pode construir palavras e com essas palavras ele constrói frases. E pouco a pouco vai fabricando histórias com aqueles átomos que voam pelo ar. (GUZMÁN, 2020)

Em Nostalgia da Luz, Guzmán constrói sua narrativa através de uma alegoria, partindo de uma meditação científica e poética – o cosmos, a astronomia – e, de uma maneira muito consciente e impactante, expande essa perspectiva para expor as profundas feridas deixadas pela ditadura chilena.

Essa intersecção entre o invisível (o átomo, a luz dos astros) e o visível (os traumas e as cicatrizes da ditadura) convida o espectador a refletir sobre a complexidade do tempo, da memória e do esquecimento. É nessa intersecção que vive a maestria de Patricio Guzmán e é nada mais do que poéticamente impressionante.

Outro exemplo, só para constar. Em O Botão de Pérola, ele parte de um botão encontrado no mar, para explorar a história da colonização no Chile e as cicatrizes abertas deixadas pelo regime autoritário vivido pelos chilenos.

Eu gosto de mídia física

Guzmán utiliza elementos aparentemente simples – como o átomo ou o botão – como pontos de partida para construir uma narrativa que se expande e se conecta com questões históricas profundas. Essa transição do átomo, da menor parte de um assunto, para a narrativa política funciona como uma metáfora para o modo como o passado, mesmo quando parece “pequeno” ou enterrado, pode ter um impacto gigantesco na identidade de um povo.

Como brasileiro, parte de uma nação que nunca lidou com as cicatrizes de seu passado, o filme ganha uma força ainda maior. Ao falar daquele botão, ele também reflete os traumas daqui.

Recomendo muito qualquer filme dele, basicamente. ENFIM, comecei falando sobre o livro… Quem tem uma clareza tão profunda para construir essa narrativa alegórica também não podia deixar de ser iluminado ao falar sobre o realizar cinematográfico, neste caso, do documentário.

Ele ainda dá exemplos de documentários para assistir que são representativos de cada forma, maneira, de realizar um filme. Um deles é um documentário de um dos maiores cineastas franceses, Jacques Tati - há quem diga (eu) que é o maior. É um documentário curto sobre uma partida de futebol que filma tudo aquilo que acontece antes, depois e ao redor dos noventa minutos e, ainda assim, talvez seja um dos filmes que melhor entendem a força que existe em um jogo. Forza Bastia (1978) é o nome dele.

Ainda sobre o livro, Guzmán não deixar de revela também suas opiniões incendiárias sobre o estado da produção de documentários atualmente, principalmente aqueles mais comuns na TV. Você sabe, aqueles que

“são uma longa coleção de entrevistas, uma atrás da outra, sem nenhuma pausa. Às vezes, um entrevistado expressa um monte de ideias, e a pessoa seguinte completa a ideia. Falam em pedacinhos, como os sobrinhos do Pato Donald, que se comunicam por fragmentos: cada um diz uma parte da frase.” (GUZMÁN, 2020).

Você sabe quais.

Escrevi tudo isso para, além de falar sobre um dos nossos cineastas preferidos, informar. Informar que na MOSTRA (Mostra Internacional de Cinema de SP) ele será um dos cineastas “presentes” com três filmes. Nenhum dos que eu comentei aqui. Eu vou. Vamos?

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O QUE ESCUTO ENQUANTO ESCREVO ESSAS LINHAS?

Cuidado! O MESMO ENCONTRA-SE PARADO NESTE ANDAR

Não é somente uma lenda urbana espalhada por placas nos elevadores. Ele está por aí.

Você já assistiu? Tá lá no instagram e tiktok em @minamesmo.

A gente escreveu e dirigiu essa série feita para social media, uma série de horror tropical na vertical.

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Escrito por: Vince Bressan


A Murphys é uma dupla de Direção e Criação de Filmes, formada por Manu Carvalho e Vince Bressan, que explora narrativas experimentais e visuais marcantes.

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